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Os desafios sociais da China
Paulo Vicentini (OPCh, Casa Asia / Igadi, 11/08/2008)
 
 

  Yuwa Hedrick-Wong; clic para aumentar
A pesquisa divulgada em agosto do ano passado pela Mastercard, garante que os novos ricos chineses são surpreendentemente mais jovens do que os ricos de seus países vizinhos. “Cerca de 64% deles possuem entre 31 e 46 anos de idade. No Japão, 70% dos ricos possuem mais de 45 anos, enquanto o mesmo índice chega a 90% nas Filipinas”, anunciou o consultor econômico Yuwa Hedrick-Wong (no quadro).
 
Quando o então diretor do Escritório para o Alívio da Pobreza e Desenvolvimento do Conselho de Estado da China, Liu Jian, entrou na sala onde concederia sua concorrida entrevista coletiva ao final da reunião de líderes mundiais para a Ação contra a Pobreza e a Fome, promovida durante a Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) de 2004, levava no bolso um extraordinário balanço sobre o combate à pobreza em seu País: o acelerado ritmo de crescimento econômico havia retirado 231 milhões de camponeses da linha da pobreza absoluta desde 1978. “A proporção de pobres entre a população rural recuou de 30,7% para 3% neste último quarto de século, para 29 milhões de pessoas”, sentenciou Liu, num tom cívico e redentor destinado a coroar de glória a política de Abertura e Reforma econômica de Deng Xiaoping.

Alguns anos e centenas de milhares de protestos sociais depois, eventualmente marcados por violentos confrontos com a polícia, cerca de 700 milhões de chineses começam a se dar conta de que não jorra maná dos muros vermelhos de Zhongnanhai - a suntuosa sede do governo central em Pequim. Mais: tanto a concentração de renda quanto o desequilíbrio no desenvolvimento econômico interregional podem afetar seriamente a estabilidade política da China, a quarta economia mundial, com um Produto Interno Bruto (PIB) estimado em US$ 3,6 trilhões em 2007.

A incrível massa populacional que permanece alheia aos benefícios imediatos da taxa média de crescimento de 9,8% acumulada pelo país nas últimas três décadas vem colocando em xeque o slogan “É preciso fazer o bolo crescer, a fim de aumentar o tamanho de suas fatias ao distribuí-lo”. O lema, inspirado num antigo provérbio chinês, é um dos símbolos ideológicos reformistas que marcam a traumática transição da economia planificada para a economia de mercado na China.

Ou seja, a percepção política de que as reformas concentraram a renda e que poucos abocanharam as fatias do bolo que um dia prometeram dividir é crescente na nação de 1.300 milhões de habitantes, a mais populosa do planeta.

Tudo porque, na visão de muitos analistas estrangeiros e chineses, a fórmula que assentou as bases do “milagre econômico chinês” – a perfeita combinação entre sua mão de obra barata, os incentivos fiscais para atração de investimentos estrangeiros, investimentos em ativos fixos e a produção orientada ao comércio exterior -, é socialmente excludente.

“A reforma econômica chinesa priorizou o desenvolvimento das forças produtivas, a fim de elevar o padrão de vida da sociedade para um nível modestamente confortável. Mas a premissa que a eficiência deve preceder a justiça social, amplamente disseminada após os acontecimentos em Tiananmen em 1989, durante o mandato de Jiang Zemin, originou profundos desequilíbrios sociais”, destaca Xulio Ríos, diretor do Instituto Galego de Análise e Documentação Internacional (Igadi) e do Observatório da Política Chinesa.

Wang Hui, historiador, professor de Humanidades da Universidade e ex-editor da Revista Dushu (Leitura), dono de uma importante produção intelectual e um dos mais respeitados críticos dos impactos sociais provocados pelo processo de reforma e abertura econômica na China, nutre semelhante ponto de vista.

“As reformas urbanas são um marco na redistribuição da riqueza na China. O Estado transferiu e privatizou seus recursos de olho nos interesses dos novos grupos privados. Obviamente, esses grupos orientaram as reformas em direção aos seus próprios objetivos”, avaliou o historiador, ao falar ao La Vanguardia sobre a origem das desigualdades sociais em seu País.

O fato é que apesar de o atual modelo de crescimento ter alçado a China à condição de quarta economia mundial ao impulsionar suas exportações de US$ 9,7 bilhões para US$ 1,22 trilhão, as reservas cambiais para o topo do ranking internacional (US$ 1,5 trilhão, sem incluir Hong Kong e Macau), o estoque de investimentos diretos estrangeiros (IED) para a casa de US$ 800 bilhões e de transformar o potencial de consumo de seu mercado interno num dos grandes fetiches das principais marcas globais, o fosso que divide os pobres dos ricos segue se alargando no mesmo compasso de sua economia.

É preciso salientar, entretanto, as dificuldades de se delinear a exata dimensão desse fosso num país onde a atuação de instituições de pesquisas independentes é limitada e as diferentes realidades regionais parecem escapar com facilidade aos olhares dos mais aguçados pesquisadores.

Por isso, nunca é demais lembrar que os balanços divulgados pelo governo chinês sobre o combate à pobreza partem de uma base muito mais flexível que a adotada pelo Banco Mundial (BIRD), por exemplo. Pequim classifica como pobres aqueles que sobrevivem com menos de US$ 0,2 por dia, enquanto o BIRD parte do patamar de US$ 1 por dia.

A China, conforme o Relatório de Desenvolvimento Humano da ONU 2007 - 2008, organizado pelo Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas (PNDU) com base nos dados de 2005, manteve a 81ª posição entre os 177 países citados no ranking de qualidade de vida, avaliada pelo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH).

Na escala entre 0 (menos desenvolvido) e 1 (mais desenvolvido), o índice obtido pela China foi de 0,777 – o mesmo vetor alcançado no relatório publicado em 2006, elaborado com base nos dados coletados em 2004. O topo do ranking é ocupado pela Islândia, com 0,968, enquanto a Serra Leoa amarga a última posição, com 0,336.

Não obstante as suspeitas que pairam sobre os dados sociais e econômicos divulgados por Pequim, o rápido crescimento das diferenças sociais é perceptível nas informações veiculadas pela mídia chinesa.

Segundo o Escritório Nacional de Estatísticas (NBS, na sigla em inglês), a renda per capita dos trabalhadores urbanos apresentou um crescimento de 17,2% no ano passado na comparação com o ano anterior, para 13.786 yuans (US$ 1,9 mil). Em contrapartida, a renda per capita da população rural subiu para 4.140 yuans (US$ 570), com um aumento de 15,4%. O Índice de Preços ao Consumidor (IPC) no ano passado atingiu 4,8% - o maior patamar da última década -, com destaque para a alta de preços de 12,3% do grupo de alimentos.

Já o Coeficiente de Gini - um dos principais indicadores internacionais para dimensionar a desigualdade de renda num país – chegou, na definição da Agência de Notícias Xinhua, ao “perigoso patamar de 0,48 no ano passado”, dentro de sua escala que varia de zero (mais igual) a 1,0 (altamente desigual) – contra os patamares anteriores de 0, 447 (2001) e de 0,4 (1994). "Aproximadamente 10% das famílias mais ricas da China concentram mais de 40% da riqueza total acumulada por todas as famílias no país, contra a cota de 2% dos 10% mais pobres", revela a imprensa local.

Na avaliação da Academia de Ciências Sociais da China, essa diferença entre os ricos e os pobres está travando a expansão do setor de serviços – o segmento que mais emprega nos países ricos. Os pesquisadores afirmam que os chineses não se tornaram grandes consumidores de serviços “por ganharem apenas o suficiente para sobreviver”.

O estudo conclui que o “setor de serviços de luxo se expandiu rapidamente em cidades como Pequim, Shanghai e Guangzhou para atender a um diminuto grupo de pessoas ricas” e que “a China não dispõe de serviços de baixo custo com padrões aceitáveis destinados à classe média e aos trabalhadores”.

Em contrapartida, a pesquisa divulgada em agosto do ano passado pela Mastercard, garante que os novos ricos chineses são surpreendentemente mais jovens do que os ricos de seus países vizinhos. “Cerca de 64% deles possuem entre 31 e 46 anos de idade. No Japão, 70% dos ricos possuem mais de 45 anos, enquanto o mesmo índice chega a 90% nas Filipinas”, anunciou o consultor econômico Yuwa Hedrick-Wong.

A MasterCard pesquisou o cotidiano financeiro de 900 pessoas e entrevistou 300 famílias com uma renda anual superior a US$ 16 mil dólares em Pequim, Shanghai e Guangzhou. "A renda anual de um quarto dos entrevistados supera a casa de US$ 50 mil", destacou a empresa. "Os jovens que trabalham em multinacionais, os integrantes das cúpulas diretivas das estatais e os empresários compõem o núcleo da população rica dos centros urbanos chineses", esclareceu Wong.

Mas os novos ricos chineses também desfrutam das benesses oferecidas por seus capitais. Segundo a MasterCard, 92,6% dos entrevistados gastaram mais de US$ 10 mil durante suas viagens no ano passado. "Hong Kong, Macau, Tailândia, Cingapura e Japão são os seus destinos turísticos preferidos", declarou Wong.

De acordo com Wong, a pesquisa apontou que os novos ricos chineses tendem a investir no setor imobiliário, a fim de ampliar os seus respectivos capitais. "Cada uma das famílias ouvidas possui pelo menos um imóvel, ao mesmo tempo em que 26% delas são proprietárias de três imóveis. Outros 8% possuem quatro imóveis", declarou o consultor, ao qualificar as bolsas de valores como "outro importante canal de investimentos" deste grupo social.

“São eles que respondem pela fartura de Buicks, Cadillacs, vitrais das majestosas grifes de roupas, vasto consumo de adornos de ouro ou prata, hotéis de luxo, importações de móveis, porcelanas, pelo boom do nicho de imóveis de alto padrão e, claro, pela maior parte do imposto de renda sonegado na China. Além disso, são cada vez mais influentes nas políticas nacionais e regionais”, destacou ao La Vanguardia Maggie Wan, economista sênior da consultoria YCM.

Mas nenhum outro estudo recente repercutiu tanto na “dança dos números sociais chineses” quanto o relatório divulgado pelo Bird em dezembro do ano passado. Depois de uma aprofundada pesquisa, os analistas concluíram que a dimensão da economia chinesa estava superestimada em 40% e que há o triplo de chineses pobres a mais que o apontado pelas projeções anteriores efetuadas pela entidade, ao redor de 300 milhões de pessoas – número maior do que a população do Brasil, por exemplo.

A instituição havia classificado a China como dona da segunda economia mundial, atrás dos Estados Unidos, ao movimentar US$ 5,73 trilhões em 2002. Para tanto, o estudo encabeçado pelo diretor do Escritório de Economia do Conhecimento do Bird, Carl Dahman, empregou a metodologia da Paridade do Poder de Compra (PPP, na sigla em inglês), capaz de indicar por intermédio dos valores das moedas nacionais aquilo que é possível de se adquirir, em substituição às cotações cambiais. Os critérios estipulados pela PPP, no entender de seus defensores, facilitam as comparações internacionais entre economias ao coibir as possíveis distorções provocadas pela conversão do dólar pelo câmbio de mercado ao valor do PIB.

Não obstante a redução da estimativa de seu PIB, a economia chinesa permanece no segundo posto do ranking mundial da PPP divulgado pelo Bird, ao responder por 10% do PIB global de US$ 55 trilhões em 2005, contra a taxa de 23% acumulada pelos Estados Unidos. Ocorre que o representante residente do PNDU na China, Khalid Malik, aproveitou a deixa para dar contornos mais realistas aos números sociais chineses durante a entrevista que concedeu em janeiro ao The New York Times. “A diferença de rendimento diário entre US$ 1 e US$ 2 é um número gigantesco de pessoas, algo em torno de 450 milhões”.

Os críticos do rápido crescimento chinês apontam ainda as atuais estruturas de emprego, salários, saúde, previdência social, educação e a corrupção como agentes multiplicadores da desigualdade social entre as populações urbanas e rurais. “Essas estruturas garantiram, com o aparato do Estado, a concentração de riqueza, poder e cultura na China”, afirmou Wang Hui à nossa reportagem.

As estatísticas corroboram com a tese do historiador. Conforme o relatório divulgado no dia 20 de maio pelo Ministério dos Recursos Humanos e Segurança Social da China, exatos 201,37 milhões de habitantes eram contemplados pelos seguros de aposentadoria nas áreas urbanas chinesas até o final do ano passado, contra 51,71 milhões de pessoas nas áreas rurais. De acordo com a lei promulgada em 1999 pelo Ministério do Trabalho, a aposentadoria compulsória para os homens que vivem nos centros urbanos é aplicada aos 60 anos, enquanto as mulheres podem ser beneficiadas aos 50 anos, com a possibilidade de verem o seu tempo de serviço prorrogado até os 55 anos.

Fontes oficiais sugerem que os cofres do governo não suportarão os encargos da previdência social, puxados pela aceleração do envelhecimento populacional no país. “O governo deverá lançar mão de US$ 110 bilhões em subsídios em 2010 para cobrir o rombo previdenciário”, segundo as projeções do economista Yi Wang. Pequim, entretanto, atenta aos boatos que tomam conta do mercado e das mesas de chá espalhadas pelo país, nega que esteja planejando a promoção de uma reforma previdenciária e a ampliação do tempo de serviço dos trabalhadores urbanos para se alcançar a desejada aposentadoria.

A inquietação dos pais com a educação de seus filhos nas áreas urbanas e rurais também é uma constante na China. Apesar de obrigatório, o acesso ao ensino fundamental de nove anos não é gratuito. Ao lado das questões em torno dos sistemas de Previdência Social e Saúde, o sistema educacional chinês é apontado como um dos grandes entraves para a ampliação do mercado doméstico. De acordo com o instituto sueco IMD, a taxa de consumo arranha a casa de 40% do PIB chinês, muito distante da taxa média de 60% observada nas principais economias do globo.

Mais: a evasão escolar – cuja estimativa oficial é de 10% -, vem crescendo nos campos em virtude da cobrança de anualidades que variam entre US$ 80 e US$ 100 e de “taxas secundárias” por parte das escolas públicas. O governo reconhece que a fuga de alunos agrava os crescentes desequilíbrios sociais entre as áreas rurais e urbanas e assegura que vai isentar os 160 milhões de alunos matriculados nas escolas rurais até o final deste ano. “A meta deverá consumir US$ 27,1 bilhões até o final de 2011”, adiantou o primeiro-ministro chinês, Wen Jiabao.

“A dupla Hu Jintao e Wen Jiabao compreendeu a importância dos problemas sociais para moderar as contradições nacionais. Acredito que o Politburo compartilhe desta idéia, apesar das prioridades de uns e outros serem eventualmente diferentes. Mas a reforma não poderá avançar sem caminhar com as duas pernas”, avalia Ríos.

Outros tipos de preocupações sociais também estão sendo detectadas nas pesquisas sobre a confiança do consumidor promovidas pelo Banco Popular da China (PBoC, na sigla em inglês), o banco central chinês, desde 2004. Segundo os técnicos, mais de 60% dos depositantes manifestam fortes preocupações com o baixo valor das aposentadorias, com as prestações das casas próprias e a formação de reservas para enfrentar futuras adversidades ao justificarem o aumento de seus depósitos - cujo montante chegou a US$ 2,39 trilhões no ano passado -, superior a 50% do PIB, uma das mais altas taxas do mundo.

A Saúde é outro tema complexo. “Cerca de 223,11 milhões de habitantes urbanos aderiram aos planos de seguros médicos disponíveis no mercado”, asseguram as autoridades do Ministério dos Recursos Humanos e Segurança Social. “É inegável o fato que as pessoas desprovidas de seguros médicos na China podem transferir num instante a poupança de uma vida para o caixa dos hospitais estatais ou privados, Nem todos ganham o suficiente ou desejam arcar com os seguros”, destacou Maggie.

O governo, porém, afirma que “a assistência médica de novo tipo” está presente em 86% dos distritos chineses e que congrega 730 milhões de camponeses. O balanço, no mínimo, é questionável, especialmente se levarmos em consideração as assombrosas projeções extra-oficiais disponíveis em torno avanço da AIDS (seis milhões de pessoas, conforme várias ONGs) e da tuberculose (5 milhões de pessoas, 78% delas nas áreas rurais) no país. “Não nos faça rir”, reagem os trabalhadores migrantes, ao serem confrontados com a propaganda oficial.

A corrupção também ajuda a corroer a situação social na China. De acordo com a Transparência Internacional (TI), a China ocupou a 70ª posição no ranking da corrupção mundial que avaliou a performance de 163 países em 2006, com uma nota de 3,3. O Índice de Percepção de Corrupção vai de zero (maior grau de corrupção) a dez (menor grau de corrupção).

A China reconhece, por exemplo, que os subornos comerciais “vêm prejudicando seriamente o conceito de livre concorrência no mercado” e que comprovou 17.084 casos no setor em 2006, 3.912 deles envolvendo a participação de funcionários públicos. A Suprema Procuradoria também expressou que as “cortes chinesas coibirão a negligência e o abuso de poder por parte dos burocratas nas zonas rurais e que permanecerão atentas aos focos de corrupção nas áreas de infra-estrutura, construção civil e aos desvios de subsídios repassados pelo governo central”, noticiou o Diário do Povo.

Poucos, no entanto, parecem dar ouvidos aos surrados discursos e promessas oficiais veiculadas pela imprensa chinesa. Este é o caso de Liu Xiuzhu, trabalhadora migrante oriunda da província de Hunan que vive de bicos nos arredores de Nanjing. “Os chefes (das vilas e distritos interioranos) sabem que estão muito distantes de Pequim e que as montanhas e os rios os protegem da fúria dos chicotes dos imperadores. (Os chefes) Sempre têm um guanxi (pistolão influente), seja para roubar, seja para se esconder. O dinheiro nunca vai parar nas mãos ou nas coisas que realmente interessam ao povo”, disse ao La Vanguardia.

“Para muitos administradores locais, a abertura de estradas, a construção de prédios públicos, as iniciativas afeitas ao aumento de produção e outros empreendimentos de imediato impacto político se sobrepõem aos investimentos em Educação e Saúde”, constatou a Xinhua, ao abordar indiretamente a corrupção nos níveis regionais de governo e os métodos e critérios adotados para a ascensão política no seio do PCCh.

O desemprego e o subemprego entre a população rural é outro fator que vem pesando decisivamente no alargamento do fosso social que divide os campos das cidades. “Se adotarmos os critérios e metodologias internacionais para avaliarmos estes índices, podemos concluir que há 200 milhões de pessoas em semelhantes condições nas zonas rurais chinesas”, expressou a Xinhua em janeiro de 2007.

Não por acaso, os pesquisadores chineses estão analisando as experiências sociais e econômicas brasileiras. “Os chineses não se cansam de perguntar como o Brasil permitiu o crescimento de cunho tão desordenado que originou as favelas e as altas taxas de violência urbana. Eles se chocam com esses fenômenos. Em virtude disso, os questionam, a fim de saber o que fazer quando o ritmo de crescimento econômico chinês desacelerar e de evitar alguns dos principais erros brasileiros”, explicou ao La Vanguardia Tom Dwyer, professor do Instituto de Filosofia e Ciências da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Brasil.

Mas há um cenário mais do que propicio para o êxodo rural na China. Muito embora somem a astronômica cifra de 150 milhões de pessoas, os trabalhadores migrantes rurais formam o mais frágil grupo social chinês. De uma forma geral, não possuem contratos trabalhistas, não recebem garantias mínimas sociais, enfrentam atrasos de até dois anos em seus pagamentos e são despedidos com muita facilidade nos centros urbanos.

Os abusos envolvendo as longas jornadas de trabalho não poupam nem as mulheres deste grupo social, conforme a pesquisa realizada junto a mil delas pela Federação Nacional de Mulheres da China. “Há mais de 50 milhões de mulheres migrantes. Metade do universo pesquisado não possui contratos de trabalho com seus patrões e 21% perderam o emprego em razão de gravidez. Além disso, 25% delas trabalham mais de 11 horas por dia e apenas 28% recebem por trabalharem mais de 8 horas por dia”, diz a pesquisa.

As desatenções com a segurança no trabalho também ameaçam seriamente esse grupo social. Somente no ano passado, a China registrou 101.480 mortes em aproximadamente um milhão de acidentes do trabalho.

Para os especialistas, a vasta oferta de mão – de – obra barata foi preponderante para a transferência das grandes empresas para a China e pelo achatamento dos salários em escala global. Apesar das projeções apontarem uma forte alta dos ganhos dos trabalhadores chineses até 2020, o salário médio mensal nas indústrias de ponta ainda oscila ao redor de US$ 120, ao mesmo tempo em que declina para a casa de US$ 50 mensais nas pequenas empresas.

Reconhecida como um dos motores da economia mundial, a China terá que gerar 100 milhões de empregos até 2016 para poder enfrentar as reformas estruturais que vem promovendo na avaliação da Organização Mundial do Comércio (OMC) e superar gargalos como a falta de mão-de-obra especializada para atuar no mercado.

A entrada em vigor do Draft Labor Contract Law, em janeiro deste ano, ainda não surtiu os esperados efeitos. “Os empregadores os violam sistematicamente. Os contratos, na maioria das oportunidades, são assinados com espaços em branco. Em outras oportunidades, os trabalhadores são obrigados a assinar dois contratos”, explicou ao La Vanguardia a socióloga Anita Chan, professora Australian National University, e autora de diversos livros sobre o tema.

O programa de renda mínima da China – apontada como uma das alternativas oficiais para aumentar a sensação de bem estar social e incentivar a atividade econômica nas províncias mais pobres -, atende pouco mais de 17 milhões de famílias no interior chinês. Em média, elas foram beneficiadas com um suporte financeiro mensal de US$ 12 em 2007. Mas o governo ainda não possui uma política definida para este tipo de ação social, conforme o próprio ministro dos Assuntos Civis, Li Xueju.

Mas o vertiginoso ritmo de crescimento econômico também está aprofundando os desníveis econômicos interregionais na China. “O PIB per capita de Shanghai foi de aproximadamente 76.000 yuans (US$ 10,13 mil) em 2006, 13 vezes maior que o valor registrado na província de Guizhou”, destacou a Rádio Internacional da China. O dado é simbolicamente significativo, já que o Diário do Povo, porta-voz oficial do PCCh, admitia em 2005 que o “PIB per capita da província mais rica é 10 vezes superior ao da província mais pobre chinesa”.

O abismo que separa as bem sucedidas e ricas províncias litorâneas das primas pobres interioranas é notório e encontra uma de suas melhores traduções na absorção do fluxo de IED. Os estrangeiros investiram US$ 82,66 bilhões no ano passado na China, 13,8% a mais que o valor atingido em 2006. Excluindo o setor financeiro, a expansão observada dos investimentos em 2007 foi de 13,6% ante o ano anterior, para US$ 74,7 bilhões.

Ocorre que 85% do volume total de investimentos estrangeiros do ano passado se concentraram nas províncias litorâneas, capitaneadas pela província de Jiangsu, contra a taxa aproximada de 78,8% registrada em 2004. Além disso, uma pesquisa levada a cabo pelo governo revelou que 58% das empresas instaladas no país não pretendem transferir suas plantas para as áreas interioranas nos próximos anos, em virtude da precária infra-estrutura e do limitado mercado consumidor dessas regiões.

Nos últimos anos - apesar do Projeto de Desenvolvimento do Oeste -, que abrange doze províncias, um município central e uma região autônoma (78% do território nacional), o PIB per capita do Oeste correspondeu a menos de 30% das regiões litorâneas do Leste, mesmo com os anunciados investimentos de US$ 120 bilhões em 105 grandes obras de infra-estrutura, como a ferrovia Qinghai-Tibet e o gasoduto Oeste-Leste.

A imprensa chinesa chegou a divulgar - às vésperas da reunião anual da Assembléia Popular Nacional (APN) realizada em março de 2006 -, que dois terços dos governos locais enfrentavam graves problemas com o déficit público. “A maioria das prefeituras sequer consegue honrar suas respectivas folhas de pagamento”, informou a Xinhua.

A notícia foi desmentida horas depois por intermédio de uma nota oficial distribuída pelo PBoC. O desencontro de informações, entretanto, reforçou a impressão de que Pequim continua centralizando excessivamente a liberação de recursos e privilegiando o desenvolvimento das regiões litorâneas.

Por outro lado, o impetuoso caráter e a velocidade de seu crescimento, bem como as necessidades diárias de consumo da gigantesca população chinesa exercem terrível pressão sobre o ambiente -- já deteriorado pelas vastas agressões cometidas nos últimos séculos e acentuados durante o período Maoísta --, limitando, substancialmente, a capacidade de distribuição de seus recursos.

“Mais da metade das vilas interioranas, que concentram 400 milhões de pessoas, não desfrutam de água potável, assim como 60% das famílias rurais não dispõem de sanitários no interior de suas residências e 150 milhões de famílias enfrentam sérios problemas com o abastecimento de combustível”, desnudou o Diário do Povo, ao justificar porque a China ainda é um país em desenvolvimento.

O problema é que a diversidade étnica e cultural sempre foi foco de resistência a quaisquer das etnias que já tenham ocupado o poder na China. Além da maioria étnica han, há outras 55 etnias minoritárias. Embora as minorias somem aproximadamente 120 milhões de pessoas entre a população total do País, algumas delas são de áreas consideradas estrategicamente indispensáveis, tanto pelas riquezas naturais quanto por suas extensões territoriais, cujos casos mais notórios são o Tibete, o Xinjiang e a Mongólia Interior, os quais, somados, equivalem a aproximadamente 50% do território chinês.

Por isso, tanto a concentração de renda quanto o desequilíbrio no desenvolvimento econômico interregional, podem converter o extraordinário cenário de suas diversidades geográficas, étnicas e culturais em estopim político do agravamento dos conflitos ou movimentos regionais separatistas, acirrando as disputas pela hegemonia política do País.

Os violentos confrontos que se seguiram aos protestos que irromperam no dia 10 de março no Tibet – que deixaram mais de uma centena de mortos, segundo o governo tibetano no exílio –, jogaram por terra a teoria da assimilação feliz na China. Para Ríos, a desigualdade social e o controle exercido pela maioria han sobre os meios de produção e das atividades comerciais naquela região contribuíram para a eclosão dos choques.

“Paradoxalmente, o modelo de desenvolvimento, majoritariamente elaborado pelos han, nem sempre é compartilhado por outras minorias, podendo materializar-se como um fator de tensão e afetar seriamente a estabilidade política e territorial da China”, diz Ríos.

Ou seja, a China convive com números sociais e com acontecimentos políticos que mais parecem lembrar à suas lideranças uma das premissas do próprio Deng. “A negligência dos interesses materiais é tolerável apenas para um pequeno grupo de pessoas, não para as massas. Mesmo que elas as tolerem por um curto período de tempo, não o farão por um longo prazo”.

 
 

Paulo Vicentini es profesor en la Nanjing University y colaborador del OPCh.

 
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Fernando Pol Trigo


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