Ler o artigo en galegoTempo Exterior nº 2 segunda época - xaneiro/xuño 2001Volver ó sumario
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Dili: o limiar pós-colonial


Paulo Castro Seixas
 

Introdução

O acompanhamento antropológico do processo de reconstrução de Dili é mais do que um mero projecto de pesquisa. Para além disso é também uma espécie de procura pessoal, assim como a tentativa de alargar a investigação em Antropologia e, especificamente, em Antropologia Urbana e, por último é também um activo compromisso para uma consciência da utilidade política dos estudos antropológicos para a construção de uma nova política sustentável para a humanidade. Dili é, assim, uma cidade que tudo junta: a minha história enquanto pessoa e antropólogo; a antropologia urbana, enquanto estudo da cidade como lugar e do seu lugar no sistema mundo e, enfim, a ciência enquanto descrição da existência e procura da utopia.

Mas, para além da minha equação pessoal, Timor, e em particular Dili, tudo junta numa liminaridade que pode ser entendida como uma centralidade das marginalidades. Marginal face ao império Português tornou-se central no seu epílogo; marginal face ao império indonésio, tornou-se na sua primeira grande fragilidade; marginal para a Austrália, tornou-se central, quer ao nível interno, quer externamente pela posição estratégia adquirida na região; marginal face aos interesses presentes dos Estados Unidos e da ONU, tornou-se –juntamente com o Kosovo- um marco na viragem da sua estratégia... Este texto, no entanto, não se dedicará à importante análise da invasão dos diversos centros pela marginalidade periférica de Timor e das transformações nesses mesmos centros. A focalização será outra, de facto uma terceira versão de Dili, enquanto cidade que tudo junta numa centralidade das marginalidades. A centralidade que Timor teve nos diversos palcos do sistema mundo reflectiu-se no seu próprio território e, em particular, em Dili, tornando-a palco de uma transição socio-política gerida internacionalmente sob a égide da ONU e é este contexto transicional que este texto abordará.

Propõe-se que Timor se encontra num estádio de liminaridade socio-política e cultural e que este contexto pode ser compreensível quer fenomenológica, quer social, quer simbolicamente pela análise e acompanhamento da cidade de Dili. É, exactamente, esse ethos urbano transicional de (des)construção, o afluxo de populações centrais aqui se marginando nesta margem tornada centro e o cruzamento de sentidos criando uma cultura de ambiguidades e paradoxos que se abordará. A liminaridade que Dili apresenta, fragmentada e híbrida nas emoções populações e sentidos, é um adequado exemplo de um contexto pós-colonial e é nesse sentido que se pretende apalavrá-la.


Dili: introdução ao ethos de uma capital transicional

Alguns aspectos impressionistas podem ser importantes para que possamos imaginarmo-nos no quadro urbano de Dili e, assim, compreendermos o ethos desta cidade enquanto transição.

É a estação seca em Timor do Sol Nascente e as cores da cidade são o cinzento e o castanho polvilhado de quando em vez por um verde opaco de algumas palmeiras e outras árvores que sobreviveram ao desmatamento em redor da cidade. E ainda que, em alguns bairros, se vislumbrem buganvílias e outros arbustos floridos, tal não é suficiente para alterar a prevalente aridez. Quem chega de avião não pode deixar de estranhar os imensos rios secos que despejam no mar o seu cascalho e é um destes grandes rios secos que , entre o aeroporto e a cidade, vemos escavado por centenas de pequenos e grandes buracos para a extracção de areias: um autêntico cenário de ficção científica! Se se fica na cidade tempo suficiente para sentir a sua atmosfera, a sensação de incómodo pode aumentar tal como o vento ao longo do dia numa constante lembrança da possibilidade de tempestade. A consciência, a certa altura, do silêncio, provocado pela total ausência de pássaros, junta-se a tudo o mais como um elemento de mau presságio... . Finalmente, apesar de ter passado um ano, os sinais da destruição, visíveis a cada passo, compõem e uniformizam o cenário: buracos e condutas de esgota abertas, decorações de jardins públicos no solo e, mais do que tudo o resto, os esqueletos habitacionais destelhados e tingidos de negro do fogo que os comeu.

Quase nos percorre um arrepio... E, no entanto, o movimento constante do trafego; as businas ininterruptas dos taxis em busca de potenciais clientes, cada vez que o olhar do condutor cruza um estrangeiro; e o que quer que nos tenha levado a estar naquele momento naquela cidade não nos deixam muito tempo para pensarmos nas cores opacas, na atmosfera ventosa e poeirenta, no silêncio da ausência de pássaros e nos esqueletos negros das casas. Mas, se pararmos um pouco e deixarmos a razão sentir o espirito urbano que nos envolve, o mau presságio surge.

Dili é uma cidade num processo de renascimento e, como na fase liminar de um rito de passagem, é possível ver os sinais da morte de uma cidade ao mesmo tempo que se vislumbram sinais da sua ressurreição. Estes sinais de liminaridade podem ser lidos por uma semiótica espacial, social e política.

Em termos espaciais, o aspecto global da cidade é o de um estaleiro urbano, de uma cidade incompleta ou inacadada, de um acampamento urbano, de uma cidade provisória. A mescla entre casas de palmeira e bambu e casas de tijolo, ruas alcatroadas e de terra batida, casas habitadas e desabitadas, destruídas e sobrevividas é talvez um primeiro elemento dessa legível provisoriedade urbana. Mas este carácter de instalação provisória não decorre apenas do que sobreviveu à Dili colonial, mas também do que de novo surgiu no processo de transição pós-colonial: Os hotéis pré-fabricados e os dois hotéis flutuantes que se encontram ancorados na baía de Dili; os escritórios pré-fabricados – apenas a 100 metros daqueles hotéis flutuantes- por detrás do Palácio do Governador, actual UNTAET; os contentores que servem às bases militares; o bairro pré-fabricado dos professores portugueses, etc. A destruição e a forma urbana provisória que se sobrepôs parecem mesmo ter-se tornado um padrão estético utilizado pelos cafés e restaurantes de Dili, como o Queimada ou o Wayaco.

Em termos sociais podemos também ver a mesma liminaridade nas trajectórias de muitos timorenses, não recuperados ainda do pesado passado colonial, agora perdido enquanto âncora identitária e já pressionados para agarrar novas vinculações e identidades. Os jovens desempregados e desculturados sentam-se apenas nas bermas dos passeios ou no muro da praia das palmeiras, como quem se instala na berma da ilha perscrutando no horizonte a um lugar naquela sociedade na qual as competências que adquiriram à tão pouco (e tanto) tempo atrás não são já aquelas que a sociedade agora lhes exige. Por outro lado aqueles que tiveram a possibilidade de conseguir um emprego, anseiam por ir para o estrangeiro- pragmaticamente para a Austrália, idealmente para Portugal – não apenas para obter um diploma ou um melhor emprego mas mesmo para ter uma vida própria. A distância é sentida como boa conselheira e a fuga é, neste como noutros casos, uma forma de procura de si próprios. Estas podem ser apenas algumas das explicações possíveis, dado que esta fuga-para-se-encontrar toma matizes diferenciadas entre homens e mulheres, parecendo ser a emancipação entendida como maior autonomia económica para aqueles e como maior autonomia social para estas. Até famílias estabelecidas com empregos dos quais se podem orgulhar referem com inveja a posição dos seus familiares no estrangeiro.

Em termos políticos é manifesto em letras maiúsculas no centro da cidade, na sede da UNTAET (United Nations Transitorial Administration in East Timor) , o estatuto transitório de Timor. East Timor (não é menosprezável o facto de ser em inglês) encontra-se entre o Timor Timur indonésio e o Timor LoroSae. Timor é, assim, a terra do sol nascente à espera da madrugada e, entre a noite e o dia, podemos encontrar diferentes comunitas num modo de vida expatriado que se deixa ler entre o aventureiro, o missionário e o mercenário. Para os contingentes militares Timor é, de uma forma bastante óbvia, um local temporário e, para a grande maioria do pessoal das Nações Unidas Timor também não é senão um passo numa carreira cujo topo ansiado é Genebra ou Nova York. E mesmo em relação ao pessoal das ONGs, Timor é também apenas um momento nas suas carreiras e só alguns poucos poderão incluir o território verdadeiramente na sua própria história de vida. De facto, o próprio expatriamento dos contingentes militarizados nacionais, da U.N. e das O.N.G.s pode em tantos casos ser entendido como um processo transitório – desejado ou não – de marginação que a tensão entre separação e reincorporação destes cria uma ilha de naufragos homologa mas separada culturalmente da ilha de naufragos timorenses que também vivem naquela tensão.

Por tudo o que foi já referido, Dili pode ser entendida como uma cidade-laboratório em que se pode perspectivar esta liminaridade espacial, económica, social, política e cultural e se pode acompanhar esta passagem entre um mundo colonial a um mundo pós-colonial. Enfim, Dili é a cidade palco em que se pode perscrutar o limiar do pós-colonialismo e o que se pretende propor neste texto é que tal estatuto transicional pode ser compreendido em função de fluxos de sentido e de fluxos populacionais que invadem a cultura quotidiana da cidade e a confundem em contínuos paradoxos identitários.

Uma qualquer pessoa que passe mesmo que pouco tempo em Dili depara-se, de uma forma mais ou menos rápida, com este contexto de cruzamento de sentidos e de populações que se pode caracterizar, por exemplo a) na utilização de 3 moedas de uso quotidiano: o dólar americano (moeda oficial), o dólar australiano e a rupia indonésia; b) na alternância quotidiana de, pelo menos, 4 línguas: o bahasa indonésio, o tetum, o inglês e o português. Esta polifonia traduz-se também numa poligrafia pela existência de 3 jornais a 4 vozes: o Tais, o Timor Post e o A Voz de Timor LoroSae; c) na presença de, pelo menos 50 nacionalidades diferentes representadas em organizações tais como ONU; CIVPOL; PKF; ONGs; etc.; d) na existência de uma pluralidade de grupos socio-culturais distintos (evidentes, simbolicamente, no “Mercado de Tais”), devido ao êxodo para Dili, traduzindo e resolvendo as suas diferenças e diferendos no quotidiano urbano.

O facto da simples vivência quotidiana nesta cidade implicar um constante cruzamento de línguas, de moedas e de práticas culturais locais e transnacionais suscita a sensação e mesmo reflexão da possibilidade de um momento de confusão, de crise ou de transição, enfim de um contexto de espera e de procura de uma estabilização e sedimentação identitária. É claro que há aqui uma ideia de identidade e de crise que pode em si mesma ser questionável e que se pretende questionar. Porque há-se a identidade ser una e simples e a crise ser plural e complexa? Não se pode construir a identidade na diversidade complexa? Acredita-se que esta problemática é, porventura, central e voltar-se-á a ela. Analisando, no entanto, um pouco mais, pode-se, num primeiro momento, tentar caracterizar os diversos fluxos populacionais que se cruzam em Dili e o papel que tais grupos jogam enquanto determinantes contextuais desta pan-planetária capital pós-colonial. Num segundo momento pode-se analisar mais pormenorizadamente os fluxos de sentido sustentados por aqueles fluxos populacionais e a forma como tais fluxos funcionam como determinantes contextuais, condicionando toda a transição socio-cultural em causa e a topogénese urbana em particular.


Expatriados; retornados; refugiados; perdidos; desembaraçados e outros

Dili deve ser, presentemente, uma das cidades do mundo, senão mesmo a cidade do mundo com a mais alta variedade de nacionalidades por quilómetro quadrado. Como Dili não terá mais de 5 km2 para mais de 50 nacionalidades, temos um razão de 10 nacionalidades por cada km2. Esta alta concentração de diferenças num único ponto torna natural encontros híbridos e promove mesmo – especificamente em alguns lugares em particular – o hibridismo como padrão cultural. No entanto, torna-se necessário olhar para além deste aparente hibridismo e analisar esta concentração de diferenças para compreender a relação entre os fluxos populacionais e a topogenese que se desenvolve há um ano já em Dili.

A reconstrução pós-colonial em Timor pode compreender-se em função de pelo menos 5 fluxos populacionais que se (des)encontram na cidade, que têm uma influência activa na topogenese de Dili e que podem ser compreendidos como um primeiro conjunto de determinantes contextuais da situação pós-colonial em que se encontra o território:

1. O fluxo social dos “expatriados” que inclui a migração temporária transnacional dos elementos da ONU e das ONGs;

2. O fluxo social dos empreendedores, o qual inclui timorenses num padrão de comerciar-para-viver, e indivíduos de outras nacionalidades que maximizam a crise como oportunidade de negócio;

3. O fluxo social da contra-diáspora ou dos timorenses retornados, da Austrália, de Portugal de Java, de Moçambique, etc.;

4. O fluxo social do êxodo das montanhas ou a capitalização de Dili enquanto convergência dos horizontes possíveis de uma nação.

5. Outros começam também a aparecer, movidos pelo missionarismo, pelo mercenarismo ou por algum desgosto, de amor ou de outro tipo...

Dediquemo-nos um pouco mais a analisar estes fluxos socio-culturais para compreender como eles estruturam a vida em Dili.

A UNTAET e os quartéis generais da CIVPOL e da PKF, as bases militares dos contingentes dos diversos países e as casas das ONGs, que surgiram em Dili depois de 20 de Setembro de 1999, são talvez os símbolos urbanos mais evidentes do movimento dos expatriados. No entanto, alguns hotéis – e, especificamente o Olímpia enquanto unidade flutuante de luxo – são também evidências urbanas não apenas da existência de um grande número de estrangeiros na cidade, mas também sinais dados à interpretação, criando perspectivas timorenses face às possíveis perspectivas dos estrangeiros em relação à sua estada no território. Para além dos topos político-administrativos e dos seus hotéis, assim como das bases militares-residenciais e das casas das ONGs, a frota de jipes da UNTAET, militares e NGOs é bastante impactante e tem também um importante papel como produtores de espaço urbano nesta nova capital.

Em relação ao segundo fluxo social, o movimento dos empresários, pode dizer-se que no último ano 10 novos hotéis surgiram, um de Singapura e outro da Tailândia (os flutuantes) e os demais oito australianos. Para além dos hotéis, mais de 50 novos restaurantes surgiram também, em Dili no último ano, alguns propriedade de australianos, um ou outro por portugueses, mas a maioria por timorenses e chineses-timorenses. Relativamente a este fluxo de empresários é importante dizer que não se trata de um grupo homogéneo. Historicamente, no tempo colonial português, eram os chineses e os chineses-timorenses os que dominavam o comércio e transportes, ficando os timorenses apenas com o pequeno comércio – especificamente no mercado público -, dominando os portugueses a indústria hoteleira. No tempo neo-colonial indonésio, estes dominavam a indústria hoteleira, continuando os chineses-timorenses a dominar parte do comércio e transportes e continuando os timorenses com o pequeno comércio. Agora, num tempo chamado “pós-colonial”, o padrão parece ainda assim teimar em reproduzir-se, tendo por um lado as Lojas dominadas por Australianos e/ou Chineses-timorenses e, por outro lado o Comerciar-Para-Sobreviver no mercado e quase por todo o lado em pequenas bancas, barracos e bicicletas, onde só encontramos timorenses. Assim, em termos económicos a colonização está outra vez no terreno, criando padrões de interacção por cisão étnica entre proprietário/gerente vs empregado ou clientes vs empregados e em que o lugar dos timorenses é sempre aquele último. Nas grandes Lojas, o malae (branco-estrangeiro) continua a dominar, apesar de se poder constatar a existência de alguns restaurantes de proprietários timorenses.

O movimento dos timorenses retornados ou o movimento de contra-diápora tem importantes consequências, apesar destas não ser tão visível, pelo menos por agora, a sua influência na construção espacial e social da cidade (ainda que haja alguns empresários da diáspora). Houve diversas diásporas, em diferentes momentos e com diferentes destinos, pelo que o movimento de contra-diáspora é múltiplo e também aqui não se pode considerar um grupo homogéneo. Há, pelo menos, três importantes destinos diaspóricos a ter em conta que originaram movimentos específicos de contra-diáspora:

a) aqueles que foram para Portugal;

b) aqueles que foram para a Austrália;

c) aqueles que têm um percurso serpenteado por diversos países;

d) aqueles –particularmente estudantes mas não exclusivamente– que foram para outras províncias da indonésia e, as mais das vezes, para Jakarta.

Provavelmente importantes lutas políticas –por exemplo relativamente à moeda e à língua oficiais do território– foram, são e serão travadas tendo os diversos grupos contra-diaspóricos como base social dessas disputas. Assim, a importância destes grupos na compreensão da reconstrução socio-espacial da cidade de Dili, e mesmo do país, é crucial.

Finalmente, relativamente ao quarto fluxo populacional, o êxodo das montanhas para Dili, trata-se, de facto, de um importante movimento social para a compreensão da topogénese da cidade pós Novembro de 1999. Muitos bairros cuja população era totalmente constituída por indonésios –caso típico, por exemplo, dos bairros habitados por militares e dos bairros habitados por dirigentes políticos– foram completamente ocupados e a sua população substituída quer por timorenses que já viviam em Dili e que ocuparam estas casas em detrimento das suas casas mais modestas, quer pela população que desceu das montanhas, os “irmãos das montanhas” que vieram para Dili quando a INTERFET entrou na cidade. Este fluxo populacional também apresenta matizes que o diferencia internamente, podendo-se evidenciar:

a) os que retornaram à cidade depois de a terem deixado num qualquer momento dos últimos 25 anos para se juntarem à resistência ou simplesmente para fugirem;

b) os que tendo sempre vivido fora de Dili, vieram em busca de segurança, ao saberem da entrada da INTERFET;

c) aqueles que vieram à procura de uma vida nova, especialmente os jovens.

Quanto aos outros, o último dos fluxos populacionais que se indica, não é de forma alguma fácil de mapear e também é relativamente polémico, provavelmente, agrupar pessoas tão diversas num só grupo. Mas, de facto, o que se torna relevante é que Timor adquiriu uma certa mística que atrai aventureiros, utópicos, mercenários e outros mais. O facto de ser uma ilha e as suas belezas naturais, a opção pelo capitalismo de transição sem controlo, a história da luta deste povo serão algumas das razões que certamente motivam esta afluxo populacional específico.

Todos estes fluxos populacionais criam, especificamente em Dili, o contexto eco-socio-cultural que suporta o nascimento deste novo Estado que vai emergir em 2001. Esta sobreposição convivencial complexa feita de fluxos populacionais marginais que afluem ao centro do território, criando assim uma centralidade de marginalidades, é a base social de um cruzamento de perspectivas ou de uma sobreposição de fluxos de sentido que podem ser entendidos como um segundo grupo de determinantes contextuais que surgem como fulcrais para compreender a complexa situação pós-colonial em que se encontra o território.


Fragmentação e hibridismo; diferenças e diferendos; convivências e conivências

Dili é uma cidade fragmentada, espelho de uma sociedade, ela própria também fragmentada. Esta fragmentação será, em grande parte, resultado da conjuntura transicional da cidade e que a transformou num palco de mil bastidores, uma espécie de teatro do mundo. É relativamente difícil mapear todos os padrões de sentido que caracterizam as perspectivas e as perspectivas face às perspectivas que emergem de cada um dos fluxos populacionais referidos e de cada subgrupo social-cultural que incluem. Mas se cada fluxo e cada subgrupo que aquele inclui pode constituir um padrão de perspectivas e de perspectivas face às perspectivas, criando assim um universos de sentido completamente fragmentado, também é verdade que a cidade, enquanto sistema social possibilita uma série de contextos situacionais e organizacionais de interacção daqueles grupos e fluxos que propiciam palcos de actuação conjunta, nos quais emergem as diferenças e os diferendos, as convivências e as conivências e formas particulares. Trata-se, evidentemente, de um trabalho a fazer mas que aqui queremos apalavrar, tentando caracterizar as linhas de cisão que atravessam e fragmentam a sociedade timorense e, em particular, a cidade de Dili. Trata-se de vários determinantes contextuais gerais e só a sua mapeação possibilita a compreensão de contextos de interacção situacional e contextual específicos.

1. Um determinante étnico que se sustenta na diferença pragmática entre “irmãos”, “mestiços” e “malae” (branco/estrangeiro). “Irmãos”, “mestiços” e “malae” é uma divisão étnica da sociedade timorense – com mais visibilidade num meio urbano como Dili – em que se estabelece a divisão entre o mesmo e o outro, criando-se zonas de ambivalência e hibridismo como a do mestiço, particularmente do mestiço de português, e a do português, entre o “irmão” e o “malae”. É claro que estas ambivalências tornam-se mais complexas, ou mais visivelmente complexas, em situação pós-colonial, tomando formas especificas consoante os contextos interaccionais situacionais e organizacionais.

2. Um determinante ecológico-cultural evidenciável na co-habitação de populações da montanha e populações da cidade. A cidade (“sidade” ou tradicionalmente “kota”, ou seja, fortaleza) opõe-se não ao campo mas sim à montanha (“foho”). Esta distinção sobrepõe-se, em parte, a uma outra construída em tempo de contestação colonial e neo-colonial, a que diferencia o “timorense” (o integrado) do “maubere” (o resistente); o “milicia” do “camarada” ou “irmão” (resistência do CNRT). Por fim, pode-se ainda sobrepôr os fortes efémeros da presença internacional (contentores murados com entrada levadiça e segurança que se assegura da posse de livre-trânsito) e as fragilidades tendencialmente permanentes das casas auto-reconstruídas num puzzle de materiais vários. Dili junta, assim, casas de palmeira a casas de areia e a destruição leva mesmo a reconstruções hibridas, lado a lado com os contentores; enquanto que a distinção entre “maubere” e “timorense”; “camarada” e “milicia” (“também são nossos irmãos” – dizem alguns) parece também ela dar origem a novas construções identitárias.

3. Um determinante geracional, visível no conflito de gerações, sobreposto ao conflito entre modelos culturais e coloniais distintos. Filhos de uma cultura aportuguesada, que se espelha nos pais, viram-se submetidos a uma indonesiação escolar forçada e agora têm alegremente de se anglofonizar se querem encontrar trabalho. É a geração Tim-Tim9, que inclui aqueles que têm até 30 anos, e que estão entre: entre territórios; entre línguas; entre gerações e entre modelos coloniais. Três modelos sobrepõem-se e tornam-se, de repente, todos presentes nesta fase de transição: o modelo colonial português; o modelo neocolonial indonésio e o modelo pós-colonial com uma forte vertente anglofona. Os três modelos juntam-se de formas diversas criando múltiplas identidades hibridas e algumas destas construções identitárias serão, sem dúvida, pela negativa.

4. Um determinante étnico-económico construído na diferenciação quotidiana de recursos e oportunidades entre timorenses e estrangeiros. Esta cisão é nítida e em crescendo sendo alimentada, quer pelas elites que anseiam por uma timorização acelerada e culpam os estrangeiros dos males que assolam o território e a cidade (prostituição, sida..), quer pelo povo que vê as suas condições de vida sem evolução visível. Esta dicotomia entre timorenses e estrangeiros só emerge enquanto tal em situações muito específicas pois a situação quotidiana é mais complexa. Por um lado, os timorenses distinguem-se entre si territorial, cultural e politicamente, por outro os estrangeiros distinguem-se por nacionalidades (especificamente Portugueses vs Australianos) e também os vários contextos organizativo-profissionais (U.N.; UNTAET; ONGs) distinguem-se pelas diferenças na estrutura e ambiente de trabalho, assim como nas remunerações.

5. Um determinante étnico-socio-linguístico que atravessa toda a sociedade citadina, tornando-a um mosaico entre o tétum, o manbai, o fataluku, o inglês, o português e o bahasa indonésio. Os retornados e os refugiados criam em Dili um caldo de culturas que numa curta visita à cidade pode passar despercebido mas que, algum tempo depois se torna evidente. Ficar na cidade ou ir para a montanha; ficar em Timor ou ir para o estrangeiro criou diferenças evidentes e essas diferenças tornam-se maiores ainda entre a primeira e a segunda geração. Sobrepõe-se a estas divisões um conhecimento político que divide o território em zonas pró-indonésia e zonas de resistência, assimilando também a diáspora a um comodismo e a contra-diáspora a um oportunismo em relação aos que ficaram e enfrentaram o sacrifício de resistir. Diferentes línguas, diferentes modos de pensar e diferentes modos de agir, relativamente difíceis de mapear mas activos nas novas construções identitárias.

6. Um determinante socio-político pela existência prática de modelos pós-coloniais alternativos e categorisável pelo confronto entre Australianos e Portugueses. De facto das cerca de 50 nacionalidades estrangeiras no território, é entre Australianos e Portugueses que se evidencia uma competição em termos de intervenção e, especificamente em Dili. O pragmatismo capitalista, o nacionalismo aguerrido e étnico e o protestantismo de uns opõe-se ao idealismo de simbolização cultural, ao nacionalismo frágil e ao catolicismo dos outros. A moeda que mais circula é o dólar australiano apesar da moeda oficial ser o dólar americano, aprende-se inglês e em encontros mistos fala-se inglês, apesar da língua oficial para o CNRT ser o Português e... no entanto, há uma maneira de ser, de sentir e de estar com o outro que tem muito de português e que é relativamente incompreensível para muitos australianos.

7. Um determinante administrativo pela existência de uma pluralidade de modelos administrativos sobrepostos, implicando diferentes hierarquias, por vezes contraditórias entre si. Pode-se enumerar o modelo de administração tradicional; o modelo de administração colonial português; o modelo de administração neo-colonial indonésio; o modelo administrativo do CNRT na clandestinidade e finalmente o modelo de administração da UNTAET. Por nenhum ter anulado completamente o anterior e haver elementos remanescentes de todos eles, pelo menos nesta fase de transição, faz com que se viva numa espécie de limbo administrativo pós-colonial em que à pluralidade de modelos acresce uma débil interrelação entre o poder de direito e o poder de facto, em função também de outras cisões (como a que opõe timorenses a estrangeiros) já evidenciadas.

Estes fluxos de sentidos e de populações proporcionando um desenho contextual complexo que aqui se apalavrou leva a que Timor, e a cidade de Dili em particular, seja o palco de uma fragmentação e hibridismo, feita de uma complexa série de encontros situacionais e organizacionais em que se jogam e negoceiam constantemente diferenças e diferendos, convivências e conveniências. Ainda que não se pretenda neste texto esboçar nenhum desses encontros situacionais e organizacionais, os quais farão parte de estudos de caso particulares, pode-se avançar algumas perspectivas gerais e provisórias relativamente aos encontros e confrontos culturais que se deixam ler na cidade de Dili.


(Des)Encontros citadinos: algumas notas finais

Dili é uma cidade em que se sente uma marginalidade difusa e latente que ensombra constantemente uma coexistência frágil. O intercruzamento pedestre, por exemplo, é ambíguo, umas vezes indiferente e outras apalavrado com um “bondia” ou “boatarde” numa mescla complexa entre consciência da diferença ou da similitude; respeito e temor colonial; marcação da distância e tentativa de comunicação...

Há a sensação de que se vive um momento fulcral e ao mesmo tempo provisório em que tudo pode ser relevante mas não se sabe de facto o que vai ser determinante. O devir e o destino de cada um está em suspenso e todos se tornam perscrutadores do momento na ânsia de advinhar a sua importância e todos gostariam já de estar do outro lado daquele tempo de limbo que facilmente se metamorfoseia no estar para além daquele espaço de ilha e da situação de ilhados. Enfim, de uma forma breve e, evidentemente provisória e parcial tal como provisória e parcial é a vida em Dili nestes momentos, posso dizer que os (des)encontros citadinos me surgiram em função de uma fragmentação e hibridismos citadinos que tomam características, pelo menos por vezes, de um certo apartheid socio-cultural ou um subtil racismo e de dominação e dependência socio-económica e política.

1. Fragmentação e hibridismo citadino: 50 nacionalidades diferentes numa cidade de 5kms2 cria, evidentemente, o ambiente propicio para o hibridismo espacial. No entanto seria de esperar mais pois é muito mais fácil ver um timorense a pé do que um estrangeiro e o hibridismo é mais visível entre as diversas nacionalidades de estrangeiros do que entre timorenses e estrangeiros. Os locais de trabalho e de lazer são, até certo ponto, lugares de hibridismo mas são-no de uma forma não-igualitária, estando os timorenses quase sempre, senão sempre, em lugares de subordinação.

2. Apartheid socio-cultural ou um subtil racismo: a separação entre trabalho e lazer é bastante óbvia. Num contexto de trabalho, timorenses e estrangeiros estão juntos ainda que em situações hierárquicas diferentes; em contexto de lazer, a um possível hibridismo espacial sobrepõe-se um mais óbvio distanciamento socio-cultural.

3. Dominação e dependência sócio-económico e política: os timorenses têm apenas lugares de subordinação económico-política, criando-se padrões de interacção de proprietário/gestor vs empregado/cliente e entre quem tem poder de governar e quem é governado.

Estas são apenas algumas das pistas de investigação que a primeira estada de terreno propiciou. Os futuros estudos de caso (a ONG Médicos do Mundo Portugal; a campanha eleitoral e eleições; uma família timorense...) irão certamente especificar este contexto e mesmo, estou certo, re-enquadrá-lo.

Paulo Castro Seixas. Universidade Fernando Pessoa/Médicos do Mundo-Portugal (Investigación apoiada pola Fundação para a Ciência e a Tecnologia).

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ÚLTIMA REVISIÓN: 17/04/2001